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Capítulo 2 – Onde as Sombras se Encontram

Capítulo 2: Onde as Sombras se Encontram

A Floresta de Kafytah os recebeu como um organismo vivo que respirava ao redor deles.

O sol, já próximo do zênite, mal conseguia penetrar a tapeçaria de folhas entrelaçadas. Os raios que atravessavam o dossel caíam em feixes estreitos, como holofotes divinos iluminando pontos específicos do chão atapetado de musgo. O ar mudava a cada passo — mais denso, mais frio, carregado de um cheiro doce e terroso.

Ethan caminhava com o cuidado de quem conhecia a floresta o suficiente para respeitá-la. Seus passos eram medidos, as botas de couro afundando levemente no tapete de samambaias. A umidade penetrava pelo tecido de sua túnica rasgada, e ele sentia o frio tocar a pele exposta do braço esquerdo, onde o corte matinal ainda latejava sob a bandagem improvisada. O hematoma nas costelas pulsava a cada respiração mais profunda.

Kopi seguia à frente, seu corpo de oitenta centímetros movendo-se com agilidade felina. O Kopimonki saltava de raiz em raiz, seus grandes olhos âmbar absorvendo cada detalhe. Sua pelagem verde funcionava como camuflagem perfeita.

O silêncio entre eles era preenchido pela sinfonia da mata: o farfalhar das copas, o canto espaçado de pássaros, o estalo ocasional de um galho. De vez em quando, Kopi virava a cabeça para trás, encontrando os olhos de Ethan numa pergunta silenciosa.

A trilha que seguiam era uma sucessão de pistas que Kopi interpretava. Pegadas de três dedos, penas multicoloridas, um rastro sutil no ar.

— Você está no caminho certo? — murmurou Ethan.

Kopi respondeu com um guincho afirmativo.

Enquanto caminhavam, a luz diminuía. As árvores tornavam-se mais grossas, troncos retorcidos cobertos por musgos escuros. Líquens prateados pendiam dos galhos como barbas espectrais.

Foi então que a floresta mudou. O ar ficou mais parado. Os sons diminuíram até quase desaparecer, substituídos por um silêncio que tinha peso.

Kopi parou, o corpo enrijecido, o pelo começando a se eriçar.

— O que foi? — sussurrou Ethan, ajoelhando-se.

Uma voz ecoou entre as árvores. Não era humana. Era como se o próprio vento tivesse aprendido a falar, com palavras que carregavam o peso de séculos.

— Parem onde estão, filhos do mundo aberto.

Ethan congelou. Sua mão direita se ergueu instintivamente, mas ele conteve o impulso de conjurar uma orbe.

E então eles surgiram. Das sombras, das fendas nas rochas, do próprio ar, emergiram os Pinotos. Criaturas pequenas, não maiores que a mão de Ethan, com corpos verde-acinzentados que camuflavam perfeitamente. Olhos desproporcionalmente grandes, dourados como pequenos sóis.

O Pinoto líder, com uma mancha prateada na testa, inclinou a cabeça.

— Reconhecemos você — transmitiu à mente de Ethan. — O jovem da montanha. Aquele que carrega a luz interior.

— Vocês... me conhecem?

— Conhecemos todos que cruzam nosso território. Mas você é diferente. A cidade fala de você. O garoto que ajuda os fazendeiros, que carrega mercadorias, que encontrou o filho perdido da padeira.

Ethan sentiu o calor subir ao rosto.

— Eu só faço o que qualquer um faria.

— Não — retrucou o Pinoto. — Não é o que qualquer um faria. A floresta tem muitos olhos, Ethan. E muitos ouvidos.

Kopi deu um passo à frente, emitindo guinchos suaves. O Pinoto líder observou, depois inclinou a cabeça em resposta.

— Seu companheiro fala por você. Lealdade. Coragem. E uma luz que queima em seu interior. Bruta, indomada, mas pura.

— Vocês podem me ajudar? — perguntou Ethan. — Procuro um Pakuboo com anilha vermelha na pata esquerda.

O Pinoto líder trocou olhares com seus companheiros.

— Sabemos do Pakuboo. E de outros também. A floresta está inquieta. Presenças estranhas. Sombras que não pertencem a este lugar. — Seus olhos dourados fixaram-se em Ethan. — Você sabe o que procura além do pássaro, não sabe?

— Homens perigosos. Ligados a Misdadiger.

— Esse nome é conhecido. Ele já tentou violar a floresta antes. Sempre enviamos seus servos de volta. Mas hoje eles são mais. E trouxeram algo que não deveria estar aqui.

— O quê?

— Não sabemos ao certo. Mas sentimos uma perturbação no coração da floresta, perto das antigas ruínas. Algo antigo foi despertado. — O Pinoto fez uma pausa. — Você vai enfrentá-los?

Ethan sustentou o olhar da criatura.

— Preciso encontrar o Pakuboo. E se esses homens estão fazendo algo errado, preciso impedi-los.

O Pinoto líder ergueu uma pata dianteira e a pressionou contra o peito.

— Então passem, Ethan, filho da montanha. A floresta reconhece seu coração. Sigam a trilha dos objetos brilhantes — os Pakuboos sempre buscam o que reluz.

Os outros Pinotos abriram passagem.

— Cuidado com a caverna. Há sombras lá dentro que nem mesmo nossos olhos podem penetrar. E se o que tememos for verdade... que a luz em você seja suficiente.

Ethan assentiu.

— Obrigado. Não esquecerei isso.

— Nós sabemos.

E então, como névoa, as criaturas recuaram e desapareceram.


Conforme avançavam, começaram a notar o que o Pinoto descrevera. Objetos reluzentes: uma lasca de mica, um inseto de carapaça metálica, uma conta de vidro azul, um botão de metal polido, um pedaço de corrente quebrada.

— O Pakuboo esteve aqui — disse Ethan, pegando a conta. — Está colecionando coisas.

Kopi apontou para mais adiante, onde a trilha de objetos brilhantes se tornava mais densa: moedas de cobre, um alfinete de prata, fragmentos de espelho.

A trilha os conduziu a uma parede de rocha viva. No centro, uma abertura regular, como se esculpida. Heras amassadas, hastes partidas recentemente.

— Uma caverna — sussurrou Ethan.

Kopi eriçou o pelo. Um cheiro ácido, como enxofre, emanava de dentro.

Trocaram um olhar. Kopi inclinou a cabeça: "Entramos?"

Ethan respirou fundo.

— Fique perto de mim. E não faça barulho.

Adentraram a escuridão.


O interior da caverna era um mundo à parte. A luz do sol morria a poucos metros. Estalactites pendiam como presas petrificadas. Mais adiante, um clarão alaranjado — tochas.

Ethan e Kopi avançaram colados à parede, usando formações rochosas como cobertura. O coração de Ethan martelava.

Conforme se aproximavam da fonte de luz, vozes se destacaram. Ethan congelou atrás de uma estalagmite e espiou.

A câmara principal era ampla, iluminada por tochas em suportes de ferro. No centro, cinco figuras ao redor de uma mesa de pedra com mapas e pergaminhos. Caixas de madeira empilhavam-se, algumas abertas revelando mantimentos, armas, moedas e joias. Um pequeno baú de metal com detalhes dourados, semi-encoberto, com um cadeado de runas que brilhava.

Ethan reconheceu dois: o barbudo da cicatriz, sentado num caixote com um hematoma no peito; o pálido massageando o ombro, pés descalços. Os outros três: um careca enorme com tatuagens e uma cicatriz no rosto; uma mulher magra de cabelos curtos, roupa de couro negro, adaga no cinto; e um homem mais velho, de manto escuro com detalhes prateados, que claramente liderava.

Ethan prendeu a respiração e ouviu.

— ...não me interessa se o moleque tem magia — dizia o homem de manto. — Vocês falharam. Misdadiger não tolera falhas.

— Não esperávamos...

— Sempre a mesma desculpa. — O homem guardou um pergaminho. — Felizmente, o senhor Misdadiger está focado em objetivos maiores. A conquista do leste exige todos os recursos.

Conquista do leste?

— Vocês terão uma chance de redenção — continuou o homem. — Quando encontrarmos o Fragmento, a expansão será inevitável. Com o poder do GranPrisma...

— Ainda não entendo — interrompeu a mulher. — O que esse Fragmento faz?

O homem de manto sorriu.

— O GranPrisma foi a arma definitiva da Grande Guerra. Cinco Fragmentos, cada um com uma fração do poder que quase destruiu o GranMundo. Reunidos, podem reescrever as leis da magia, dobrar a realidade.

Silêncio.

— E um Fragmento está aqui? — perguntou a mulher.

— Textos antigos mencionam que foi escondido nas Montanhas de Kafytah. Acreditamos que esteja nesta caverna.

— E o dragão? — A voz do barbudo tremia. — Por que mantê-lo aqui?

O homem de manto sorriu com crueldade.

— Segurança. Uma fera ancestral, aprisionada com magia negra. Se algo der errado...

Ethan sentiu o sangue gelar. Havia um dragão na caverna.

Precisava sair. Recuou lentamente.

Foi quando viu Kopi se mover. O Kopimonki, atraído pelo brilho das moedas, deslizou para perto do baú. Antes que Ethan pudesse reagir, a pata de Kopi tocou uma pilha de moedas que desabou com um tinido metálico que ecoou como um trovão.

Todos os cinco se viraram.

— O que foi isso? — rosnou o careca.

Kara localizou o som.

— Temos visitantes — anunciou, sorriso predatório.

O homem de manto estreitou os olhos.

— Mostrem-se. Agora.

Ethan saiu de trás da estalagmite, Kopi no ombro, pelo eriçado. As palmas de Ethan já brilhavam com energia azul.

— Você — rosnou o barbudo. — O garoto da magia.

— Eu disse que voltaríamos a nos encontrar — respondeu Ethan.

O homem de manto observou com interesse.

— Então este é o jovem mago. Diga-me, garoto, sabe do poder que carrega?

— Não estou interessado.

— Uma pena. Misdadiger valoriza talentos. Poderia oferecer riqueza, poder...

— A resposta é não.

O sorriso do homem desapareceu.

— Matem-nos.

Mas o barbudo, em pânico, recuou para o fundo.

— Vocês não entendem! Ele vai nos matar! A magia dele...

— Controle-se! — ordenou Kara.

— O dragão! — berrou o barbudo, correndo para uma alavanca de ferro. — Vamos acordar o dragão!

— Não, seu idiota! — gritou o homem de manto.

Era tarde. O barbudo puxou a alavanca com toda a força.

Por um instante, nada. Um silêncio absoluto.

Então o chão tremeu. Uma convulsão profunda. Estalactites caíram. Uma rachadura se abriu na parede do fundo.

E de dentro, veio o rugido. Uma vibração que Ethan sentiu nos ossos. Fúria ancestral, fogo e destruição.

O pânico explodiu.

— Fujam! — gritou alguém.

Ethan agarrou Kopi e correu para a entrada. Atrás deles, a rachadura se alargava. Uma luz alaranjada e infernal. A garra colossal emergiu — cada dedo do tamanho de um homem, garras negras como obsidiana. Escamas de cobre e bronze.

Ethan não parou. Correu como nunca, os pulmões queimando. A caverna desmoronava ao redor.

Ele viu a entrada. A luz do dia. Saltou para fora, rolando pelo chão da floresta, Kopi agarrado a ele. Os Pakuboos — atraídos pelos objetos brilhantes — também escaparam em desordem, guinchando.

E então, atrás deles, a entrada desabou.

Não foi o peso das rochas. Foi o dragão. Ao irromper da prisão de pedra, sua massa colossal quebrou a estrutura da caverna. O teto cedeu, rochas enormes selaram a passagem. Ethan ouviu, por um breve instante, os gritos abafados dos capangas presos do lado de dentro. Depois, silêncio. A entrada estava bloqueada. De fora para dentro. De dentro para fora.

O dragão irrompeu no mundo.


A devastação foi imediata.

Quinze metros de escamas de cobre envelhecido. Asas membranosas que derrubavam árvores. Espinhos ósseos ao longo do dorso. Olhos de enxofre derretido, pupilas verticais. Não havia inteligência — apenas fúria.

O dragão abriu as mandíbulas e cuspiu fogo líquido que grudava e continuava queimando. Árvores explodiram em chamas. Uma clareira foi reduzida a cinzas em segundos.

Ethan correu. Os Pakuboos voavam sobre ele em pânico, uma nuvem colorida. Mas o fogo se espalhava rápido.

Foi então que os Pinotos surgiram. Dezenas, centenas. Emergiram das árvores em chamas como se a floresta os expelisse. Pousavam nos galhos, flutuavam com asas translúcidas. Olhos dourados brilhavam como estrelas no inferno.

O Pinoto de testa prateada pairou ao lado de Ethan.

— A floresta está ardendo. O dragão deve ser detido.

— Como? — Ethan ofegou. — Não posso lutar contra ele sozinho!

— Você não vai lutar. Nós vamos guiá-lo.

O Pinoto virou-se para seus companheiros, emitindo trinados. Todos responderam em uníssono.

Voaram em direção ao dragão, pousando em suas escamas, nas dobras de suas asas. Cada toque emitia uma pequena luz verde. O dragão rugiu, tentando abocanhá-los, mas eram pequenos demais, rápidos demais. Suas garras cortavam o ar vazio.

Onde os Pinotos tocavam, as chamas enfraqueciam. Sugavam a energia do fogo.

— Não podemos detê-lo — disse o líder —, mas podemos guiá-lo para cima. Para longe da floresta.

Num movimento coordenado, os Pinotos começaram a subir em espirais ao redor do dragão, guiando-o para o alto. A criatura rugiu, confusa, mas lentamente, quase contra sua vontade, começou a voar. Suas asas bateram, criando um vendaval. Subiu sobre o dossel, sobrevoando a floresta em vez de queimá-la.

Ethan observou por um instante.

— Corra para a vila. Alerte os humanos. Preparem-se.

Ethan correu.


Ethan rompeu a linha das árvores como uma flecha.

Kafytah se estendia diante dele, pacífica e inconsciente. O mercado fervilhava. Pessoas circulavam, negociavam. Crianças corriam. O ferreiro martelava. A padaria exalava cheiro de pão fresco.

— O dragão! — gritou, a voz rouca ecoando pela praça. — Um dragão está vindo! Vindo da floresta!

O burburinho morreu. Rostos viraram-se. Expressões de confusão. Depois, quando viram suas roupas queimadas, seus ferimentos, o pânico genuíno, o medo se espalhou.

— Dragão? Isso é coisa de lenda, garoto!

— Não é lenda! — Ethan apontou para o leste, onde uma coluna de fumaça se erguia. — Ele está vindo!

E então o chão tremeu. No horizonte, a silhueta do dragão começou a se delinear contra o céu. Sobrevoando a região. As asas abertas bloqueavam parcialmente o sol. A sombra se estendia por todo o vilarejo.

O pânico explodiu. Gritos. Correria.

— Parem! — A voz de Ethan cortou o tumulto. — Se correrem em pânico, vão morrer! Precisamos nos organizar!

As pessoas hesitaram.

— É o garoto da montanha! O ajudante do Frimbo!

— Ele me ajudou a carregar mercadorias!

— Foi ele que encontrou meu filho!

Reconhecimento. Confiança.

— Eu sei o que está vindo — disse Ethan. — E sei que podemos afugentá-lo se trabalharmos juntos. Mas preciso da ajuda de todos.

Outro tremor. O dragão se aproximava.

— O que precisamos fazer? — A voz veio de Marte, o ferreiro, avental de couro, braços musculosos.

— Água — disse Ethan. — Baldes, mangueiras, tudo que puder conter água. O fogo é a maior ameaça. — Apontou para homens jovens. — Formem uma brigada. Puxem água do poço, dos barris. Joguem nos telhados, nas paredes. Tudo de madeira precisa estar molhado.

Os homens correram.

— Marte — continuou Ethan —, correntes, ganchos, cordas?

— Para que?

— As asas. Prender as asas para forçá-lo a ficar no chão.

— Deixe comigo.

— E óleo! — Uma ideia súbita. — Alguém tem óleo, piche?

Elga, a taverneira, ergueu a mão.

— Tenho barris de óleo de cozinha. Inflamáveis.

— Perfeito. Tragam para a praça.

As pessoas se moveram.

Frimbo emergiu da multidão. Chapéu torto, colete coberto de fuligem, mancha de óleo na testa.

— Ethan! Graças aos deuses!

— Frimbo? — Ethan piscou. — Onde você estava?

— Negociando! Quem convenceu Elga a ceder os barris? E a brigada de água? Metade só apareceu porque prometi hidromel grátis!

— Organize as pessoas. Marte com as correntes, Elga com os barris, jovens na água. Preciso de coordenação.

Frimbo assentiu e virou-se para a multidão.

— Vocês ouviram! Tragam baldes! Cordas! Marte, correntes na praça central! Elga, barris na frente da padaria! Vamos!

A praça transformou-se num formigueiro.

E então o dragão chegou.

Desceu das alturas, as asas criando um vendaval que levantou poeira e fez barracas voarem. O som de suas batidas era como tambores de guerra.

O tempo parou. O dragão fitou o vilarejo. O vilarejo fitou o dragão.

Então rugiu. Vidraças estilhaçaram. Pessoas caíram de joelhos. Ethan sentiu o impacto como um golpe físico.

Mas não caiu.

— Marte! As correntes!

O ferreiro e seus ajudantes avançaram, carregando correntes de ferro com ganchos. Aproximaram-se pela lateral.

— Água nos telhados! — Ethan gritou, e a brigada jogou baldes.

O dragão avançou. Sua golfada de fogo atingiu uma casa desocupada, que explodiu em chamas. Mas as casas vizinhas, molhadas, resistiram.

— Agarrem as asas!

As correntes voaram. Um gancho prendeu-se na membrana da asa direita. O dragão rugiu de dor e surpresa. Os homens puxaram, ancorando as correntes em postes de ferro cravados no chão. A asa direita ficou presa.

— A outra! Depressa!

Outra corrente voou, prendendo a asa esquerda. O dragão estava com as duas asas imobilizadas, incapaz de voar.

— O óleo! — gritou Ethan. — Joguem!

Elga e seus ajudantes rolaram os barris. Arremessaram-nos contra as patas do dragão. O óleo espalhou-se, encharcando escamas.

O dragão preparou outra golfada.

— Recuem! — Ethan ergueu a mão, conjurando uma orbe azul. Não para atacar, mas para acender o óleo. Disparou.

O óleo explodiu em chamas. Uma parede de fogo ergueu-se ao redor do dragão, lambendo seu ventre, patas, asas. A criatura rugiu — dor e fúria. Mas não medo.

— Mais correntes! — berrou Marte. — Segurem!

Mas o dragão, mesmo com as asas presas, era colossal. Sua força era ancestral. Os músculos de seu dorso se retesaram, as escamas rangendo contra o metal. As correntes gemeram. Os postes de ferro estremeceram.

— Ele vai quebrá-las! — gritou alguém.

Era tarde. Com um rugido que parecia rasgar o céu, o dragão puxou com toda a sua força. As correntes estalaram — não uma a uma, mas todas ao mesmo tempo. Elos de ferro se partiram como galhos secos, voando em todas as direções. Os postes foram arrancados do chão. Homens caíram para trás. Marte rolou no chão, mas levantou-se imediatamente, os olhos arregalados.

O dragão estava livre.

Suas asas, agora desimpedidas, abriram-se com um estalo ensurdecedor. O fogo ainda lambia seu ventre, mas a criatura não parecia sentir. Batendo as asas uma vez, duas, ergueu-se do chão, criando um vendaval que derrubou barracas e jogou pessoas para longe.

Ethan ergueu a mão, conjurando outra orbe, mas a exaustão pesava em seus braços. A orbe formou-se, pequena, trêmula.

— Não! — gritou ele, mas não adiantou.

O dragão alçou voo, subindo rapidamente, deixando para trás a vila em chamas. Sua silhueta tornou-se cada vez menor contra o céu, rumo ao norte, para as montanhas distantes. Não fugia por medo. Fugia porque a batalha, por enquanto, não valia mais o esforço. Havia feridas a lamber, escamas a limpar. Mas voltaria. Ethan sabia disso.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.

Chamas crepitavam. Fumaça subia. Correntes quebradas jaziam retorcidas no chão. Pessoas estavam caídas, exaustas, mas vivas.

Alguém começou a aplaudir. Depois outros. Até a praça explodir numa ovação.

— Ethan! Ethan! Ethan!

Marte aproximou-se, rosto coberto de fuligem, sorriso imenso.

— Você conseguiu, garoto. Ele foi embora.

— Por enquanto — respondeu Ethan, ofegante. — Mas ele quebrou as correntes. Voltará.

— Então estaremos prontos.

Kopi saltou para seu ombro, esfregando a cabeça contra sua face.

Frimbo apareceu, chapéu torto, olhos brilhando.

— Ethan! Você foi incrível!

— Não fui só eu.

— Eu sei. Mas sem você...

Ethan olhou para as correntes retorcidas, para o céu vazio para onde o dragão desaparecera.

— Os Pakuboos — disse, lembrando-se. — Estão a salvo.

No telhado da taverna, Pipo e a companheira estavam empoleirados, lado a lado.

Frimbo ergueu os olhos.

— Pelo menos algo deu certo.


Enquanto isso, na caverna...

A escuridão voltara a reinar. As tochas se apagaram. A entrada estava completamente bloqueada por rochas. Os capangas estavam presos.

Os cinco estavam reunidos no centro, ofegantes. O barbudo, o pálido, o careca tatuado, Kara, o homem de manto.

— Estamos presos — disse Kara.

— A culpa é daquele garoto.

— Não importa — interrompeu o homem de manto. — O dragão escapou.

— O que ele vai fazer? — perguntou o pálido.

Ele não terminou a frase. O ar no centro da câmara começou a mudar.

Uma fenda circular se abriu — uma ferida na realidade, bordas brilhando com luz púrpura e negra. Um zumbido grave encheu a câmara. O odor de ozônio e algo mais antigo, mais profundo, impregnou o espaço.

O portal.

Os capangas congelaram. O homem de manto deu um passo à frente, mas sua expressão era de puro espanto.

— O que é isso? — sussurrou Kara.

A figura emergiu do portal.

Não caminhou — deslizou, como se o ar fosse água e ele fosse uma criatura que pertencia a ele. Era um jovem adulto, de feições delicadas e arcanas, com um ar de confiança serena que contrastava com a brutalidade do momento. Seus cabelos, de um branco puro e marcante, erguiam-se em pontas espetadas, capturando a luz residual do portal como se fossem feitos de prata líquida. Sua pele era clara, quase translúcida, e seus olhos — vibrantes, de um roxo intenso — brilhavam contra uma esclera de tom escuro, dando-lhe uma aparência sobrenatural. Um sorriso sutil e confiante curvava seus lábios, como se a cena diante dele fosse mais uma distração do que uma ameaça.

Vestia um robe opulento de tom roxo-fechado, ricamente ornamentado com filigranas douradas que se entrelaçavam em padrões intrincados, como runas vivas. Ombreiras de metal negro protegiam seus ombros, e botas do mesmo material calçavam seus pés, cada passo ecoando com o peso de autoridade. Múltiplos cintos de couro marrom, com fivelas douradas, cruzavam sua cintura, e correntes pendentes tilintavam suavemente a cada movimento. Sua gola alta, presa por um medalhão com uma gema arroxeada central, realçava o contraste entre o preto, o roxo e o ouro de sua vestimenta. A mão esquerda estava confortavelmente enfiada no bolso, enquanto a direita, estendida, sustentava uma chama mágica — uma energia roxa pulsante que flutuava sobre sua palma, iluminando seu rosto com um brilho etéreo.

— Vocês — disse ele, a voz baixa, aveludada, mas carregada de uma autoridade fria. — Estão atrapalhando.

— Quem é você? — exigiu o homem de manto, a voz tremendo apesar de sua tentativa de autoridade. — Como entrou aqui?

O estranho não respondeu. A chama roxa em sua mão direita oscilou, alongando-se como uma serpente de energia. Ele não se moveu, não gesticulou — apenas observou, o sorriso ainda em seus lábios.

— O que... — começou Kara, a adaga já em sua mão.

A chama roxa moveu-se.

Não foi rápida. Foi precisa. Ela se desprendeu da palma do estranho e deslizou pelo ar como uma cobra líquida, tocando o peito do homem de manto. Ele não gritou. Seus olhos se arregalaram por um instante, e então ele caiu de joelhos, depois de bruços, imóvel.

Kara avançou, a adaga cortando o ar em direção ao estranho. A chama roxa encontrou-a antes que a lâmina pudesse alcançar seu alvo. A mulher soltou um som abafado — não de dor, mas de surpresa — e caiu ao lado do homem de manto.

O careca tatuado correu para o bloqueio de rochas, tentando escalá-lo, mas a chama o alcançou. Seu corpo tombou sobre as pedras, imóvel.

O barbudo e o pálido caíram juntos, como se tivessem tentado fugir lado a lado e falhado.

Em menos de trinta segundos, a câmara estava silenciosa.

O estranho permaneceu imóvel, a chama roxa recuando para sua mão direita como uma serpente domada. Seus olhos vibrantes percorreram os corpos com uma frieza que beirava o desinteresse. O sorriso sutil ainda brincava em seus lábios, como se aquilo tudo fosse apenas uma formalidade.

Então ele se virou para o pequeno baú de metal com detalhes dourados — o cadeado de runas estava reduzido a fragmentos fumegantes espalhados pelo chão. O estranho aproximou-se, a chama roxa iluminando o caminho, e ajoelhou-se diante dele.

Com um gesto preciso, abriu a tampa.

Dentro, sobre um leito de veludo negro, repousava um cristal.

Era do tamanho de um punho fechado, com a forma de um prisma hexagonal. Sua superfície não era lisa — era facetada, como um diamante bruto, mas em vez de refletir a luz, parecia absorvê-la. Uma luminescência pálida e pulsante emanava de seu interior, mudando de cor a cada batida: azul, depois verde, depois dourado, depois púrpura. Como se fragmentos de magia pura estivessem aprisionados dentro do cristal, girando lentamente numa dança eterna.

O Fragmento do GranPrisma.

O estranho segurou o cristal com as duas mãos — a direita ainda envolta pela chama roxa, a esquerda saindo finalmente do bolso. Por um instante, a luz do Fragmento iluminou seu rosto. Seus olhos roxos refletiram o brilho, e o sorriso em seus lábios alargou-se quase imperceptivelmente. Não era surpresa. Era posse. Como se ele já soubesse que o Fragmento estaria ali, como se tivesse vindo exatamente para buscá-lo.

— Quatro Fragmentos restantes — murmurou ele, a voz baixa e aveludada. — O tempo está se esgotando.

Guardou o Fragmento numa bolsa presa a um dos cintos de couro e ergueu-se. A chama roxa em sua mão direita continuava a pulsar, lançando sombras dançantes pelas paredes da caverna. Seus olhos percorreram os corpos, os destroços. Ainda o mesmo sorriso. Ainda a mesma frieza.

Ele se virou para o portal, que ainda brilhava, aguardando. A luz púrpura dançou em seu rosto, alongando suas sombras, realçando o brilho de seus olhos. Mas antes de atravessar, hesitou.

Seus olhos se voltaram para a entrada bloqueada da caverna — para a direção onde Ethan fugira, onde o dragão rugira, onde o vilarejo agora comemorava sua vitória.

— Em breve, Ethan — sussurrou ele, o sorriso ainda em seus lábios. — Em breve você entenderá.

A chama roxa em sua mão estremeceu, como se ecoasse suas palavras.

E então ele ergueu a mão direita. A chama roxa, antes contida, explodiu em intensidade, crescendo até envolver todo o seu braço. Com um movimento amplo e quase casual, ele a lançou contra as paredes da caverna.

O impacto foi devastador.

A chama roxa espalhou-se como um líquido corrosivo, tocando cada centímetro da rocha viva. Onde passava, a pedra estalava, rachava, desintegrava-se em pó. Estalactites caíram do teto. O chão tremeu. Uma fenda gigante abriu-se no centro da câmara, engolindo os corpos dos capangas, as caixas, os pergaminhos, tudo o que restava. A energia roxa pulsava, expandindo-se como um coração doente, consumindo a estrutura da caverna de dentro para fora.

O estranho observou por um instante, o sorriso ainda em seus lábios. Então, com a mesma serenidade com que chegara, deu um passo para trás e atravessou o portal.

A fenda no ar fechou-se com um estalo seco.

Um segundo depois, a caverna desabou por completo.

O teto cedeu, rochas enormes caíram sobre o que restava da câmara. A entrada, já bloqueada, foi soterrada por uma avalanche de pedra e terra que se estendeu para além da encosta. A montanha estremeceu, e o som do colapso ecoou pela floresta como um trovão subterrâneo.

Nada restou da caverna. Nenhum vestígio do baú, dos corpos, dos mapas. Apenas pedras, poeira e o silêncio pesado de um túmulo recém-fechado.

Lá fora, a floresta ainda ardia. O dragão voava para o norte. E em Kafytah, Ethan era aclamado como herói, sem saber que, nas profundezas da montanha que deixara para trás, a verdadeira ameaça dera mais um passo em direção ao seu destino — e destruíra todas as evidências de sua passagem.

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